quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Capela do Espírito Santo em Vila Verde (no Terreiro) encerra um segredo!


O Douro é também um factor aglutinador de vias. Uma via romano/medieval ligava a margem esquerda (atravessava o Douro junto à Ilha dos Amores (foz do Paiva) a Tongóbriga e Vila Boa de Quires e entroncando no eixo principal que se dirigia a Santiago de Compostela. A ritualidade religiosa  era similar nas terras ribeirinhas. A confirmá-lo estão testemunhos como o das duas capelas do Espírito Santo(Marco de Canaveses e Castelo de Paiva)
ROTA DO ROMANO/MEDIEVAL 
(Marco de Canaveses)

"No ordenamento romano do séc. II d.C., o rio Douro servia de fronteira entre as províncias de Tarraconense (a norte/margem direita) e a Lusitânia (a sul/margem esquerda), acarretando essa divisão administrativa distintos ritmos de crescimento e de desenvolvimento. No entanto, mantinha-se uma ritualidade religiosa similar nas terras ribeirinhas das duas margens, segundo conclusões da investigação arqueológica recente.
Tomar contacto com estes conhecimentos e, em simultâneo, percorrer os espaços e observar as paisagens que acolheram estas vivências antigas é uma boa justificação para o presente itinerário, estando em experiência, por agora, apenas o troço de estrada S. Nicolau a Tongobriga."
(Fonte: Folheto de Divulgação do Projecto)

O troço experimental, com início em S. Nicolau, compreende:
Visita à Igreja de S. Nicolau, de estilo românico, que ainda apresenta no seu interior restos sobrepostos de frescos de diversas épocas, sendo a maior parte atribuíveis ao séc. XVI. À direita da Igreja de S. Nicolau pode visitar também a Capela de S. Lázaro bem como o cruzeiro da Boa Passagem que se encontra em frente à Igreja.
Continue subindo a pé a rua romano/medieval e pare junto à Albergaria de D. Mafalda e capela do Espírito Santo que terá servido para albergar nove peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela.
in "Marco de Canaveses, Um Município em Movimento"

(Castelo de Paiva)

A semelhança destas duas capelas é mais que evidente. Aconselhamos a inclusão nesta rota da Capela do Espírito Santo em Vila Verde (no Terreiro).Tudo indica que esta Capela (do Espírito Santo situada no Terreiro, Vila Verde),  que em 1758, estava arruinada, e foi portanto reconstruída nos século XVIII e XIX, onde nas imediações já encontramos a célebre ara pré cristã  - (em pleno e farto celeiro agrícola do rio Sardoura) - desempenhou no passado uma função social caridosa de albergue e  ajuda aos peregrinos e caminhantes que passavam por esta via indo e vindo de Santiago de Compostela, como acontecia no Marco de Canaveses.


                                        Albergaria de Canaveses e Capela do Espírito Santo




                         A Capela do Espírito Santo em Vila Verde (no Terreiro)
                                                   (foto OTL - Arquivo Luis Lousada Soares/ADEP)

Até nas linhas arquitecturais temos uma réplica perfeita, senão vejamos. Na foto, é fácil divisar uma fachada “tirada a papel químico” da fachada da Capela do Espírito Santo do Marco de Canaveses. Desta se diz que é de arquitectura civil, medieval e maneirista; que o Paço foi transformado em albergaria, por ordem da rainha Santa Mafalda. A albergaria consiste num conjunto de edifícios térreos, virados para a estrada romana/medieval, (como acontece em Vila Verde) mas que até aos dias de hoje sofreram grandes modificações que lhe alteraram a traça original. Segundo a tradição e a interpretação de vários investigadores, foi mandada construir por D. Mafalda uma albergaria junto à capela do Espírito Santo (VASCONCELOS,1935) de que ainda permanece uma pequena casa térrea já alterada (hoje é uma adega). No interior desta estrutura é detectável uma janela aberta para o interior da capela, ou seja, quem estivesse no interior do edifício, a atual adega, ouvia as missas ditas na capela sem ter de se deslocar.
E se a fachada foi tirada a papel químico também a nossa Capela de Vila Verde tem igualmente uma janela aberta, para que quem estivesse nos aposentos anexos. Num e noutro caso hoje os espaços anexos estão ao serviço de casas rurais e agrícolas, servindo de adegas e espaços de habitação. Na capela do Marco refere o autor que ainda é visível uma padieira (em xisto) e junto à adega, existe um conjunto de pequenos compartimentos, pouco espaçosos, mas, que no seu total, dariam para albergar talvez nove ou um número um pouco maior de peregrinos.
Graça, L. “Hospitais e outros Estabelecimentos Assistênciais até ao Final do Século XV” diz-nos: “Quanto às albergarias (tal como as gafarias), sabe-se que a sua existência é anterior à própria fundação da nacionalidade. Tenderão entretanto a desaparecer entre nós, embora mais lentamente do que no resto da Europa, a partir do fim da Idade Média, com o progressivo declínio das peregrinações.
Grande parte das albergarias situavam-se junto a mosteiros e igrejas, povoações e estradas mais importantes, nomeadamente ao longo do caminho de Santiago, e em particular a norte do Mondego.
Às primeiras rainhas atribui-se igualmente a fundação de diversas albergarias, como, por exemplo, aquela que terá dado origem ao toponónimo Albergaria-a-Velha, criada em 1120 por Dona Teresa, mãe do primeiro rei de Portugal. Ou a de Chaves, mandada construir por D. Mafalda.
Os primeiros reis de Portugal também se preocuparam com a manutenção e a extensão da rede de albergarias — caso de D. Sancho I que no seu testamento de 1209 deixa legados, em dinheiro, a diversos estabelecimentos do género existentes no centro e norte do país.
Como diz o historiador Veríssimo Serrão (1990, vol. I. 221), "falta um mapa global para reconstituir esses marcos de cobertura viática, mas para certas ordens há elementos precisos. Assim, no que respeita aos mosteiros beneditinos que ficavam a norte do Mondego, possuíam albergues: uns, da invocação de Claraval, como Maceira Dão, Lamego, Sever e Tarouca; e outros, ligados à regra de Cister, como Moimenta, Tabosa, Arouca e Bouças".
Correia (1938) situa as principais albergarias sobretudo ao longo das antigas estradas romanas, tal como de resto uma boa parte dos outros estabelecimentos de beneficência. Na mesma localidade, podiam coexistir, aliás, diferentes tipos de estabelecimentos: Albergarias, Mercearias, Gafarias, Hospitais e Hospícios, para além dos Conventos. De qualquer modo, a sua concentração é sobretudo ao longo da rede viária romana ou de outras vias de comunicação utilizadas pelos peregrinos que, de França, Espanha e Portugal, demandavam Santiago de Compostela. Essa concentração era mais evidente em troços como:
  • Vila Real de Santo António/Mértola/Beja/Alcácer do Sal/Setúbal
  • Beja/Évora/Estremoz/Arronches/Badajoz
  • Lisboa/Santarém/Coimbra/Porto
  • Porto/Braga/Santiago de Compostela
  • Alcântara (Espanha)/Idanha-A-Nova/Guarda/Penafiel/Braga/Santiago (sublinhado nosso, para lembrar que na margem sul correspondente está Paiva, com o conhecido atravessamento para Várzea do Douro (próximo do Convento de Alpendurada), no Castelo e além disso com inúmeros portos, cais e embarcadouros de Pedorido, Fontaínhas, Midões, Gramão e Boure).

·         Aqui nas imediações desta capela temos de memória visual caminhos calçados de enormes fragas graníticas desgastados com enormes sulcos dos rodados e que se não estão  hoje visíveis, nem sequer referênciados como passagem, de importante via antiga, a sua presença não será mera obra do acaso, mas há-de dever-se à proximidade dos rios Douro e Sardoura; da situação  geográfica do território e sua ligação a locais (Nojões) e  territórios vizinhos importantes (Arouca). Castelo, Boure, e Gramão que foram importantes lugares de travessia e embarque no Douro. Nojões e Várzea são locais de passagem de peregrinos, vindos do sul e de leste como pode muito bem ser o de passagem para Santiago de Compostela na Galiza.

Pena que não tenhamos tido ainda acesso a documentação (se é que ela existe) sobre a história desta Capela (do Espírito Santo de Vila Verde) para que se possa fazer luz sobre o passado que encerra; sendo certo que é mais um importante referencial para confirmar o que temos defendido da inevitabilidade da passagem de uma importante via medieval e quiça romana de acesso e atravessamento dos rios Sardoura e Douro passando por Vila Verde e Nojões.























transcrições e texto de Martinho Rocha


Sem comentários: