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sábado, 27 de dezembro de 2025

DE POETAS LATINOS, (porque é Natal)

 DE POETAS LATINOS

 

                                      Vênus Adormecida de Giorgione

Horácio Paiva  -  Poeta* 

 

Gosto dos clássicos e sempre os visito. Na paz do Natal, isolado em “meus Montes Sabinos”, que transporto do histórico Lácio para a beleza agreste de Taipu, na Vivenda da Conceição da fazenda Lagoa Nova, releio Horácio, Vergílio, Ovídio, e navego Odes, Bucólicas e Arte de Amar. Depois, sonhando sem dormir, entrego-me a vigília amorosa e indispensável, a Pervigilium Veneris, ou seja, a Vigília de Vênus, deusa do Amor. Sim, pois “homo sum; nihil humani a me alienum puto” (“sou homem; nada do que é humano a mim é estranho”), como dizia Terêncio e repetia meu professor de latim, ao que acrescento: sobretudo a paixão. E, grato como costumo ser, mais uma vez agradeço a emoção, a fantasia e o prazer estético que me traz a poesia clássica, rica herança que recebo desse histórico trio de mestres da harmonia e do verso, ilustres representantes da chamada época de ouro da poesia latina (século I, a.C., a século I, d.C.). E enquanto me visita a Antiguidade, no recolhimento deste refúgio rural onde me encontro, na companhia da noite e de cécubo vinho, anoto ao acaso essas breves amostras retiradas das obras-primas revisitadas e as repasso, com o prazer sem pressa de quem presenteia (sim, isto mesmo, com a aliteração que o humor torna proposital):

 

da Ode 11, Livro I, das “Carmina” de Horácio (na minha tradução):

 

“Não indagues (ímpio é saber), ó Leucónoe,

Qual fim reservarão, a mim ou a ti, os Deuses

(...)

Sê sábia, o vinho decanta e ajusta

A longa esperança à vida breve.

Enquanto conversamos, foge invejoso

O tempo: colhe o dia de hoje, crendo

O mínimo possível no amanhã.”

 

Do poema 1, das “Bucólicas”, de Vergílio (na tradução de Zelia de Almeida Cardoso):

 

“Todavia, tu poderás descansar esta noite comigo

Sobre uma folhagem nova. Tenho frutas maduras,

Castanhas assadas e fartura de queijo;

Os telhados das casas já estão fumegando, ao longe,

E as sombras caem mais alongadas do alto das montanhas.”

 

Da Arte de Amar, I, de Ovídio (na tradução de Anna Lia A. de Almeida Prado):

 

“Se alguém neste povo não conhece a arte de amar,

Leia este poema e, tendo-o lido, já instruído, ame.

Pela arte os céleres barcos com a vela e o remo são movidos,

Pela arte leve é o carro. Pela arte deve ser regido o Amor.”

 

“(...) a mim cede o Amor, embora fira com o arco

Meu peito, agite e lance suas tochas.

Quanto mais me feriu o Amor, quanto mais violento me queimou,

Tanto mais vingador eu serei da ferida feita.”

 

“Nós, a Vênus sem riscos, os segredos permitidos cantaremos,

E no meu poema nada de censurável haverá.”

 

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No mais, é lembrar que Vênus faz sua vigília... na eternidade. E, na “Pervigilium Veneris”, um belíssimo anônimo latino, essa eterna vigília se encontra... e nos encanta, nesse bordão, aqui no meu jeito de dizer em português:

 

“Amanhã deve amar quem nunca houver amado,

E quem já houver amado, amanhã deve amar.”

 

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Há também outros, vários outros, todos bons, certamente direis, que foram capazes de ouvir estrelas e derramar seus eternos e encantados segredos sobre nós, e que poderiam participar deste sarau... E  disto são exemplos Propércio, Tíbulo, Marcial, Ausônio, Sulpícia, Catulo.

 

Há mais, mas por enquanto, separo dois destes já citados: Sulpícia e Catulo.

 

Sulpícia, única representante feminina nesse grupo e uma das poucas mulheres da Antiguidade a deixar uma obra poética, é tida como autora de seis poemas curtos, mas significativos, o que lhe garante presença permanente no Parnaso da poesia latina. De suas Elegias (Elegia III) são esses versos, traduzidos por Zelia de Almeida Cardoso:

 

“Finalmente o amor chegou e seja eu mais conhecida

Por tê-lo encoberto por pudor do que por tê-lo revelado a alguém.

Comovida por meus versos, Citereia o trouxe

E o depositou em meu regaço.

Vênus cumpriu suas promessas. Se alguém, ao que se sabe,

Não encontrou alegrias, que fale das minhas.

Não gostaria de confiar alguma coisa a tabuinhas seladas

Para que ninguém a lesse antes de meu amado;

Alegro-me de meu erro; aborrece-me fingir por minha reputação.

Que se diga que eu fui digna com um homem digno.”

 

Quanto a Catulo, sua importância é inegável e, sua posição, pioneira nesse cenário de estrelas, pois anterior àquela mais famosa tríade do período áureo da poesia lírica romana (Horácio-Vergílio-Ovídio). Suas “Carmina” (musicadas pelo alemão Carl Orff, um dos mais destacados compositores modernos do século XX) são belíssimas e um convite permanente ao amor e à sensualidade. Vejamos a de número 5, na tradução do professor Lauro Mistura:

 

“Vivamos, minha Lésbia, amemo-nos,

E a todas as censuras de velhos

Demasiadamente austeros

Demos o valor de um único asse.

Os sóis podem se pôr e retornar;

Quando porém numa única vez a breve luz

De nossas vidas desaparece no ocaso,

Somos obrigados a dormir uma noite sem fim.

Dá-me mil beijos, depois cem,

A seguir outros mil e mais cem

E depois ininterruptamente outros

Mil e mais cem.

A seguir, depois que tivermos trocado

Estes muitos milhares de beijos,

Alteraremos a soma deles para que

Não saibamos quantos foram ou

Para que nenhum invejoso possa nos

Lançar um mau-olhado quando souber

Exatamente o número destes beijos.”

 

“Da mi basia mille, da mi basia, ...” Poema sonoro e apaixonado, e tal sonoridade, capaz de inspirar Carl Orff em sua peça musical, associada à exaltação sentimental também me serviu de inspiração ao escrever meu poema “Noite Íntima”:

 

“Na estrada de penas e dores

o que me redime

senão a memória

de teus beijos musicais?

 

Beijos que ainda

ditam meu voo

como sinos do amor

que do passado

se tornam imortais”

 

No mais, Musa, no mais, que a lira desfalece e a voz embarga no imaginário de tantos beijos. Os demais bardos trarei em nova amostra, pois, na Arcádia, a noite é d’água, o pau flora e as Plêiades (Setestrelo, entre nós, com suas estrelinhas que povoam a mística sertaneja} já se escondem entre as nuvens.

 

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(*) Horácio de Paiva Oliveira  -  Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Ainda é meio Maio. Homenagem luso-brasileira às mães!

Homenagem luso-brasileira às mães, juntando dois poemas: um, de autoria de Horário Paiva, nosso seguidor; outro, escrito pelo grande poeta português, Eugénio de Andrade HOMENAGEM POÉTICA LUSO-BRASILEIRA ÀS MÃES (Horácio Paiva, Brasil - Eugénio de Andrade, Portugal)
- Eugénio de Andrade - PORTUGAL
Igreja de Sobrado de invocação a Santa Maria!

quinta-feira, 2 de março de 2023

A diáspora também escreve, poesia!

P.s. É com enorme prazer que hoje apresentamos o nosso conterrâneo de ascendência a quem abrimos desde já esta e outras portas da nossa terra. Venha daí! Horácio Paiva, diz ..."Sou seguidor e admirador desse blog da ADEP. Brasileiro, com ascendência portuguesa, moro numa praia próxima a Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, no Nordeste do Brasil. Sou escritor, poeta e advogado, membro da União Brasileira de Escritores/RN, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte/IHGRN e da Academia Macauense de Letras e Artes/AMLA. Conheço Portugal, país que amo, mas ainda não estive em Castelo de Paiva e nas terras ribeirinhas ao Rio Paiva, região de alguns de meus antepassados."
imagem de festas e tradições de Castelo de Paiva

terça-feira, 11 de julho de 2017

Sebastião de Oliveira Damas e a vontade de geminar Castelo de Paiva e Campos do Jordão


foto Arq. L. Lousada Soares / ADEP






Sebastião de Oliveira Damas e a vontade de geminar Castelo de Paiva e Campos do Jordão


Na passada terça-feira a direcção da ADEP fez chegar ao Presidente da Câmara a  sua anuência  à vontade que lhe foi manifestada de que se iniciem diligências e contactos com vista à geminação de Castelo de Paiva com  a cidade de Campos do Jordão no Brasil.

O pedido chegou-nos por intermédio de parente de Sebastião de Oliveira Damas, este que, como muitos outros paivenses, no inicio do século passado  emigraram para esse local, alguns que tornaram outros que por lá ficaram, e a quem se reconhece muita importância para a cultura, a história e progresso daquela cidade e região.

E se lá em Campos do Jordão a importância deste movimento migratório, se reconhece, tendo a comunidade integrado alguns paivenses que lá ficaram definitivamente, seja pela obra feita ou pela descendência deixada, não será despiciendo dizer o mesmo da importância daqueles que foram e tornaram viagem. Há todo um levantamento e estudo por fazer sobre este movimento migratório e influência na nossa arquitectura e urbanismo. Certo é que há obra feita e que perdura até aos nossos dias em ambos os lados do Atlântico.


Dos estudos genealógicos que estão a ser desenvolvidos no âmbito da ADEP (*) e que podem ser um conteúdo valioso para melhor se conhecer e divulgar a história de vida destas famílias já é possível dizer que o pedido vem da comunidade e família de descendente em segundo grau de irmão da mãe de Sebastião de Oliveira Damas. Estes ascendentes tinham ainda outro irmão, de nome Sebastião Ferreira Rocha, de Vila Verde, também ele emigrante e depois retornado do Brasil, que além de tio daquele era ainda seu padrinho de baptismo,  foi prestigiado mestre de obras na época ( tendo levado a cabo obras emblemáticas como a reconstrução do chafariz da Boavista, a construção da frontaria do cemitério de Sobrado, a ponte de Melo, no Rio  Paiva, entre outras), pessoa que terá tido alguma influência na formação profissional de Sebastião de Oliveira Damas, este empreendedor que se lançou com o entusiasmo e arrojo que se testemunha na obra deixada que ainda hoje perdura em terras de Além Mar e que está na base deste projecto de geminação.



















(*) João Vieira, Mário Pereira, Martinho Rocha e Rui Pereira)






















escreveu Martinho Rocha