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quarta-feira, 10 de junho de 2026

10 de junho: Camões, a Língua e Paiva

 


10 de junho: Camões, a Língua e Paiva

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos muito mais do que uma data do calendário. Celebramos a nossa identidade coletiva, a nossa história e a língua que, ao longo dos séculos, se tornou a expressão maior da alma portuguesa.

Em Luís de Camões encontramos o símbolo supremo dessa herança. Através da sua obra imortal, e em particular de Os Lusíadas, a língua portuguesa atingiu uma dimensão universal, tornando-se veículo de cultura, conhecimento e encontro entre povos espalhados pelos vários continentes.

Mas a história da nossa língua não começou com Camões. Muito antes do poeta maior de Portugal, houve homens e mulheres que, através da palavra escrita e falada, ajudaram a construir os alicerces daquele património comum que hoje une mais de duzentos milhões de falantes em todo o mundo.

É precisamente nesse percurso fundador que as Terras de Paiva ocupam um lugar de especial relevância.

Foi um senhor de Paiva, Paio Soares Romeu, quem subscreveu a célebre Notícia de Fiadores de 1175, documento frequentemente considerado um dos mais antigos textos conhecidos em língua portuguesa e, para muitos estudiosos, o mais antigo documento datado redigido na nossa língua. Independentemente dos debates académicos sobre a primazia absoluta deste ou de outros documentos, trata-se de um testemunho extraordinário da emergência do português escrito e de uma ligação histórica de que Castelo de Paiva se pode justamente orgulhar.

Mas a contribuição de Paiva para a história da língua portuguesa não se fica por aqui. Das mesmas linhagens emerge também João Soares de Paiva, reconhecido como o mais antigo trovador português de que se conserva obra conhecida. Através das suas cantigas, encontramos os primeiros ecos da poesia galego-portuguesa que viria a florescer nas cortes medievais e a marcar profundamente a literatura peninsular.

E é igualmente neste universo familiar e senhorial que a tradição genealógica identifica raízes que conduzem a Santo António de Lisboa, uma das figuras portuguesas mais admiradas e veneradas em todo o mundo, cuja mensagem continua a atravessar séculos e fronteiras.

Assim, quando hoje evocamos Camões e a língua portuguesa, encontramos razões acrescidas para recordar o contributo que as Terras de Paiva deram à construção da identidade nacional. Poucos territórios podem reivindicar uma ligação simultânea aos primórdios da escrita portuguesa, aos primórdios da nossa poesia e a uma das figuras mais universais da espiritualidade portuguesa.

Celebrar Camões é celebrar a língua. Celebrar a língua é celebrar a história de Portugal. E celebrar essa história é também reconhecer o lugar que Paiva ocupa na formação da nossa memória coletiva.

Porque a língua portuguesa não nasceu apenas nos grandes centros do reino. Foi sendo construída em muitos lugares, por muitas gerações e por muitas vozes. Entre essas vozes, as Terras de Paiva têm, sem dúvida, uma palavra antiga, distinta e merecedora de ser lembrada.



ADEP

domingo, 3 de agosto de 2025

ECOS DO PORTUGUÊS ARCAICO OU GALEGO-PORTUGUÊS NO NORDESTE BRASILEIRO


imagem em https://www.igadi.gal/pt-pt/analise/e-a-galiza-e-lusofona/

ECOS DO PORTUGUÊS ARCAICO OU GALEGO-PORTUGUÊS NO NORDESTE BRASILEIRO

 

(I)

POR MOR DE SABER DE RAÍZES

 

-  Horácio Paiva *

 

Não censure. Pela fala, o matuto nordestino é de ultramar. Galego? Pelo menos o seu “pro mode” (por mor de) origina-se no galego-português, ou galaico-português, considerado, na Idade Média, a língua culta da Península Ibérica, falada nas regiões de Galiza e Portugal (oeste da Península), antes pertencentes ao Reino de Leão e, depois, ao de Castela.

 

Com efeito, na Europa, na chamada Alta Idade Média, entre tantos dialetos, eram mencionadas como línguas cultas, utilizadas pelos trovadores, poetas e demais literatos: na França, o provençal; na Itália, o toscano; na Península Ibérica, o galego-português. Assim, as célebres “Canções de Santa Maria”, do rei de Castela, Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português e não em castelhano, sua língua materna.

 

Essa bela raiz, o galego-português, bifurcou-se e gerou duas línguas irmãs, o galego e o português. E a geopolítica, atuando sobre fronteiras e nacionalidades, interferiu nesse processo. Alguns atribuem ao ano de 1.139 d.C., ano da batalha de Ourique  -  quando Portugal dava o passo definitivo para sua independência de Castela  -, como início da separação das duas línguas. Entretanto, não nos podemos prender a uma data e desconsiderar diversos outros fatores, profundos e mais complexos, como, por exemplo, o império colonial de ultramar criado por Portugal e a anterior e mais prolongada, em relação à Galícia, ocupação árabe de seu território.

 

Há tempos me debruço sobre essa questão, sobretudo porque, no Nordeste, guardamos muito da herança linguística do português arcaico, ou galaico-português, que nos foi transmitida pelo modo de falar dos antigos colonizadores portugueses, que se estabeleceram inicial e majoritariamente aqui, e mantida sobretudo no interior.

 

Admiro a língua galega e suas palavras conservadas no linguajar nordestino. Ainda hoje, em galego, água é auga, virgem é virxe (Virgem Maria!, Virxe María!), gente é xente, por causa de ou por amor de é por mor de (o nosso pro mode). Entonces, quando dizemos oxente estamos a dizer ô gente!... Sim, do jeito mesmo que falei, entonces, pois continua portuguesa a palavra, que em galego moderno é entón.

 

Os galegos, descendentes dos suevos e celtas, assim como os minhotos, do norte de Portugal, são brancos e, não raro, aloirados. Daí chamarmos "galegos" as pessoas assim descritas.

 

Certa vez, um poeta galego, Carlos Fontes (e não Carlos “Fuentes”, em escrita castelhana), escreveu-me uma pequena carta, um e-mail elogioso em galego. Ele conhecera uns poemas meus, através de Felix Contreras, poeta e ensaísta cubano, e gostara. Escreveu-me assim:

 

“Querido Horácio,

 

magnífica a súa poesía, chea de resóns e raiceiras. Tiven ocasión de ler os outros dous poemas que conforman a triloxía grazas a Félix.

O concello onde vivo, Vilaboa, pertence á provincia de Pontevedra, situada no suroeste de Galicia, raiana con Portugal, unidas polo Miño até a desembocadura no Atlántico. Así que, ademais de polo "flaco" Contreras, estamos conectados por un río e un océano, e mollamos os pés na mesma auga.

 

Unha calorosa aperta,

Carlos.”

 

(Xoán Carlos Fontes Moledo  -  seu nome completo)

 

 

A tradução (e precisa traduzir?) seria assim:

 

“Sua poesia é magnífica, cheia de ecos e raízes. Tive a oportunidade de ler os outros dois poemas que compõem a trilogia graças ao Félix.

O município onde vivo, Vilaboa, pertence à província de Pontevedra, situada no sudoeste da Galiza, na fronteira com Portugal, unida pelo Minho à foz do Atlântico. Assim, além do Contreras “magro”, estamos ligados por um rio e um oceano, e mergulhamos os pés na mesma água.

 

Um abraço caloroso,

Carlos.”

 

Quanta semelhança nas duas línguas!... Ambas, portanto, belas e muito parecidas!

 

Há poucos dias escrevi um poemeto e tive a ousadia de traduzi-lo para galego. Ficou assim:

 

TURNO MATUTINO

 

Não estou seguro desta manhã:

o dia parece

um trampolim...

 

A noite levou quem eu queria

e me deixou só

num limbo de marfim.

 

 

QUENDA DE MAÑÁ

 

Non estou seguro esta mañá:

o día parece

un trampolín...

 

A noite levou quen quería

e deixoume só

nun limbo de marfil.

 

 

 

(II)

 

A ALMA LÍRICA GALEGO-PORTUGUESA

 

-  Horácio Paiva *

 

A alma lírica da Galícia seria a mesma de Portugal? Já vimos que na Idade Média o idioma era o mesmo, o galego-português ou galaico-português, entre nós também chamado de português arcaico. Um dos textos literários mais antigos -  e que ultimamente vem-se confirmando como, de fato, o mais antigo preservado  -  é o sirventês (sátira ou cantiga de mal dizer) escrito pelo trovador português João Soares de Paiva (nascido em 1.140 d.C.), intitulado “Ora faz ost’o senhor de Navarra” (“Agora faz isto o senhor de Navarra”) e escrito, provavelmente, em 1.196 d.C. Nele, o poeta reprova o rei de Navarra por invadir Aragão, aproveitando-se da ausência do rei do país invadido (que se encontrava na Provença), atitude condenável sobretudo ante às regras morais da época.

 

Portugal e Galícia mantêm, ademais, um laço antigo, familiar, cultural e de sangue, que remonta à formação de seus povos e que advém dos Suevos, invasores germânicos de origem nórdica, que ali  -  no Noroeste da Península Ibérica, e com a desagregação do Império Romano do Ocidente  -  se estabeleceram, ao contrário dos Visigodos, originários do Oeste da Germânia, que fundaram seus reinos no Nordeste, Centro e Leste da mencionada Península, velha província romana da Hispânia.

 

Curioso e sobretudo importante destacar que na Galícia existe uma entidade cultural que preserva a tradição dessa irmandade linguística, e que abriga um movimento de reintegração do idioma à sua maneira autêntica/tradicional de expressar-se, isto é, reforça as posições pró-lusófonas, de unidade com a língua portuguesa. Trata-se da Academia Galega da Língua Portuguesa (https://www.academiagalega.gal/), constituída oficialmente em 20 de setembro em 2008. Embora nova, a Academia expressa uma aspiração de reintegração linguística antiga e consistente e já contabiliza uma importante vitória, com a decisão prolatada em 20 de julho de 2017, em reunião realizada no Brasil, em Brasília, pelo Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que lhe concede a categoria de Observador Consultivo, tornando-a, assim, a primeira entidade da sociedade civil galega a participar oficialmente desse organismo, e, acrescente-se, merecidamente, haja vista a sua defesa da unidade da língua portuguesa, da qual o galego historicamente faz parte.

 

A vitória, portanto, não é apenas da Academia, mas da própria língua que pulsa e quer ver-se oficialmente reintegrada ao seu leito secular originário, superando dificuldades, inclusive o obstáculo político que lhe foi imposto pela ditadura franquista durante algum tempo.  Com efeito, nessa época, até os nomes próprios tinham que ser registrados em castelhano (espanhol), já que proibidos estavam os cartórios de acolhê-los em galego.

 

Conheço pessoalmente dois exemplos vivos de pessoas que atravessaram essa experiência de nomes oficialmente mutilados para espanhol. Morou durante algum tempo em Natal (agora, já em Portugal), contratado pela Fundação José Augusto, um escritor e dramaturgo galego chamado Monxo Rodrigues que, havendo nascido no período franquista, fora registrado como Ramón Rodriguez Guisande. Por sua vez, Juan Carlos Fuentes Moledo, escritor, contista, poeta, jornalista, que vive em Pontevedra, Galícia, tem dessa forma registrado o seu nome, mas, com orgulho, usa outro, o seu nome galego, Carlos Fontes, com o qual assina as cartas que me dirige, também no seu idioma materno.

 

Assim, a língua galega vive... e encanta! E eis, no original galego, o final de uma dessas cartas que me mandou o poeta Carlos Fontes, de expressão tão exemplar:

 

“E escribo en galego, a actualización histórica daquela lingua que, entre os séculos XII  e XV, acadou gloria en forma de lírica mediaval galego-portuguesa. A lingua portuguesa seguiu o seu camiño, e a galega, baixo a forte influencia de Castela, iniciu unha longa viaxe polo deserto ata poderse refrescar na figura de Rosalía de Castro, que, a mediados do XIX, inicia o Rexurdimento.

 

Unha aperta grande e agarimosa,

 

Carlos Fontes.”

 

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(*) Horácio de Paiva Oliveira  -  Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA. 

terça-feira, 6 de maio de 2025

Dia Mundial da Língua Portuguesa / contributo dos nossos poetas!

https://artsandculture.google.com/story/hAVh8lgLbZAgLA?hl=pt-PT

domingo, 19 de março de 2017

Primeiros textos em Língua Portuguesa atribuídos a senhores da terra de Paiva!

Brazão com a cruz abolotada dos Bulhões (no portal da Serrada)

Primeiros textos em Língua Portuguesa atribuídos a senhores da terra de Paiva ascendentes de Santo António

D. Soeiro Pais de Paiva, também conhecido por D. Soeiro Mouro de Paiva ou apenas por D. Soeiro Mouro, (bisneto de D. Trocozendo Guedes, fundador do Mosteiro de Paço de Sousa), foi casado com D. Urraca Mendes (de Bragança), depois de esta ter enviuvado de D. Diogo Gonçalves de Urrô (ou de Cete).
Deste casamento resultaram os filhos:
João Soares de Paiva, D. Cristina Soares e Payo Soares Romeu.
Dona Goda Soares houve três filhos e duas filhas de Dom Paio Romeu (ou Paio Pires de Paiva): e um filho de nome Martim (S)aído?, e não houve filhos; e outro houve nome Pero Galego, e não houve filhos; e outro houve nome dom Soeiro Mo(u)ro de Pa(v)ha, e foi casado com dona Orraca Mendes (…)  
Dom Soeiro Mouro houve dois filhos e uma filha: e um filho houve nome João Soares de Pa(v)ha…outro filho houve nome Pai Romeu, o pequeno (Payo Soares Romeu)….e a filha houve nome Cristina Soares (Livro velho de Linhagens 2F8, PIEL e Mattoso 1980 (I):55-56.”
“Dona Orraca Mendez havia de dom Diogo Gonçalves peça de filhos… e quando soube que seu marido fora morto na batalha que el rei D. Afonso, o primeiro rei de Portugal, houve com os Mouros no campo d’Ourique, nom leixou porém de casar com dom Soeiro Mouro. Este dom Soeiro Paez Mouro foi casado com Orraca Mendez de Bragança (….) e fez em ela Joham Soarez, o Trobador, e Paai Soarez Romeu, o prestimoneiro, e Cristina Soarez ( Livro de Linhagens do Conde D. Pedro 42W5; PIEL e Mattoso 1980 (II/I): 487 – 488)”.
João Soares de Paiva casou com D. Maria Annes e deste casamento resultou Thereza Anes, além de outros.
Esta Thereza Anes era portanto sobrinha de Payo Soares Romeu e de Cristina Soares.
De uma relação, ao que parece, extra-conjugal de Payo Soares Romeu com Thereza Anes, sua sobrinha, nasceu Teresa Taveira ou d’Azevedo, mãe de Santo António, conforme registo na árvore genealógica da Casa da Boavista, em Castelo de Paiva.
Teresa Taveira também aparece em alguns documentos como Maria Teresa Taveira.
Os pais de Teresa Taveira foram assim: Payo Soares Romeu e Thereza Anes, facto que contradiz a descrição inserta a pág. 66 do livro de Guido de Monterey Castelo de Paiva terras ao léu, que aponta como tradição histórica ser Teresa Taveira filha do casal Payo Soares Romeu e de D. Sancha de Portocarrero, descrição que surge certamente, por transcrição de elementos de recolha produzidos com base em análise menos profunda de registos genealógicos medievais, os quais nem sempre se consideraram perfeitamente conciliatórias.
Tendo Santo António de Lisboa (Fernão de Bulhões) por mãe Teresa Taveira, Payo Soares Romeu surge aqui como seu avô. Por outro lado sendo Thereza Anes sua avó, o pai desta, João Soares de Paiva, irmão de Payo Soares Romeu, foi bisavô de Santo António. E neste alinhamento D. Soeiro Pais de Paiva e D. Urraca Mendes também foram seus bisavôs pelo lado do pai de Teresa Taveira (Payo Soares Romeu) e trisavós pelo lado da mãe de Teresa Taveira (Thereza Anes).
Esta família viveu muito chegada ao primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques: O irmão de D. Urraca Mendes de Bragança, Fernão Mendes, senhor de Bragança, casou com D. Sancha Henriques, então viúva de D. Rui (ou Rodrigo) Gonçalves Pereira. Logo, D. Urraca Mendes de Bragança foi cunhada de D. Sancha Henriques, irmã de D. Afonso Henriques, o que quer dizer que as gentes de Paiva ligadas a Santo António, também estiveram ligadas à fundação de Portugal.
Mas mais:
Importa também salientar o facto de João Soares de Paiva e Payo Soares Romeu, também conhecido por Pelágio Romeu, irmãos, nobres oriundos das terras marginais do rio Paiva, a sul do rio Douro, estarem reconhecidos como os autores de uma das primeiras e mais antigas, senão a mais antiga escrita em língua portuguesa, conhecida como: Notícia de Fiadores de 1175 [1] de Payo Soares Romeu, e João Soares de Paiva como um trovador medieval português, o mais antigo autor com obra conservada presente nos cancioneiros medievais galaico-portugueses, com a mais antiga cantiga trovadoresca portuguesa, texto satírico da lírica medieval, de 1196, filho de D. Soeiro Paes, dito Mouro e de D. Urraca Mendes de Bragança[2].
Caminhos do Português[3]:
“O aparecimento da Notícia de Fiadores de 1175 veio confirmar a bondade das observações de Ivo Castro e Rosa Virgínia Mattos e Silva.
Embora o sirvantês “Ora faz ost’ o senhor de Navarra” seja um pouco mais tardio que a Notícia de Fiadores, o seu autor, João Soares de Paiva nasceu presumivelmente na primeira metade do século XII (depois de 1139, data da batalha de Ourique)[4] e terá desenvolvido a sua actividade poética durante a segunda metade do século. Sabe-se que além do referido sirvantês escreveu outras cantigas, provavelmente de amor, das quais nos chega notícia mas não os respectivos textos (cfr. Gonçalves e Ramos 1983, Gonçalves 1976, Carlos Alvar 1993).
Sendo hoje geralmente aceite que a arte poética dos trovadores se constituiu desde sempre em tradição escrita, circulando não em suporte de oralidade e memória mas em “folhas” soltas depois reunidas em cancioneiros individuais e em grandes compilações colectivas, parece não restar qualquer margem para duvidar de que se escrevia em português na segunda metade do século XII.
Curiosamente, João Soares de Paiva e Paio Soares de Paiva, dito Mouro, o autor de Notícias de Fiadores não são só contemporâneos como irmãos, filhos de D. Soeiro Paiz de Paiva, dito Mouro e de D. Urraca Mendes de Bragança.
NOTÍCIA DE FIADORES – o texto dado como o mais antigo na história da língua portuguesa, de Payo Soares Romeu, senhor da terra de Paiva, avô de Santo António:


Ora faz ost’ o senhor de Navarra
A cantiga satírica, dada como trova das mais antigas, escrita em galaico-português, atribuída a João Soares de Paiva, irmão de Payo Soares Romeu, em que, também ele, João Soares de Paiva, foi senhor em terra de Paiva e bisavô de Santo António:


Adep – Castelo de Paiva, 15 de Janeiro de 2017
Mário Gonçalves Pereira




[1] - Notícia de Fiadores de Pelágio Romeu(ou Payo Soares Romeu)(1175)-Mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto, maço 20, n.º 10 – rosto.
[2] - In cantigas.fcsh.unl.pt e Ivo Castro 2001.
[3] -In books.google.pt pag.40
[4] - Obs: João Soares de Paiva nasceu do segundo casamento de Urraca Mendes, certamente pouco depois do seu primeiro marido ter morrido na batalha de Ourique, 1139, e foi bisavô de Santo António que nasceu em 1195, pelo que aquela data do pós 1139 é perfeitamente aceite.