sexta-feira, 15 de agosto de 2025

REQUALIFICAÇÃO DO PATRIMÓNIO PG l (Poço de Germunde)










A ADEP, a comunidade mineira paivense e a população do Couto Mineiro do Pejão congratulam-se pelo início das obras de preservação e reabilitação do antigo PG I do complexo industrial mineiro de Germunde,  sendo que este tema sempre foi  preocupação da comunidade marcando recorrentemente a agenda e o debate público.

A intervenção e preservação, neste património que é Municipal, atesta hoje que estavam certas as vontades de quem sempre defendeu outro destino para todo o património mineiro do concelho.


A EDM (Empresa de Desenvolvimento Mineiro) sob a presidência de Gonçalo  Rocha, e ex- presidente da Câmara Municipal, ao assinar este projeto faz-nos acreditar  que se vai concretizar naquele local, até agora abandonado, um importante espaço museológico, vivo, de impacto nacional e capaz de contribuir para que novas dinâmicas envolvam outros valores turísticos do concelho.O prazo da execução da obra é apenas de 485 dias.

O nosso bem haja e reconhecimento a esta iniciativa e que também o município e outras instituições possam contribuir para valorizar, engrandecer e dar a conhecer o património do Couto Mineiro.

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15 de agosto de 2025.

A direcção da ADEP  

 

 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Dicionário "Palavras da Terra" III





LUGARES no concelho de Castelo de Paiva

Abelheira - lugar da freguesia de Real.

Adroia - lugar da freguesia de São Martinho de Sardoura.

Ancia - lugar da freguesia de Real. Adriano M Strecht de Vasconcelos (Lendas e Tradições de Castelo de Paiva: 1981, p.29 a 37)  localiza aí, numa cruz de caminhos o local onde D. Paio Soeiro de Paiva mata a mulher que lhe foi desleal. O lento sofrimento e a agonia da morte terão dado o nome de Ancia ao local.

Azevide - lugar da freguesia de Real.

OUTROS LUGARES

Ancêde - vila na margem direita do Douro, Baião. Na estrada que vai para as Caldas, houve no lugar de Lordelo um arco de 2 metros de alto  e no meio dele um tumulo. Na tampa da sepultura (que já não existe) estava gravada uma espada. Também aqui se diz que assinala o local onde descansou a rainha Santa Mafalda, quando foi fundar a casa de banhos das Caldas d'Aregos. Pinho Leal diz que o tumulo é (era) de um guerreiro, em vista da espada. Interessante a similitude com uma das lendas associada ao Marmoiral, que o referencia como a memória onde descansou o corpo da rainha beata Mafalda, que traziam da vila de Canaveses para o real mosteiro de Arouca (Memórias Paroquiais:1758 - Padre Luís Cardoso).

Anégia - em 1062 em Villa Rial, (Castelo de Paiva) aparecem mencionados os lugares do Crasto, Freamil, Várzea Dona, Agrela, Azevido, Santa Cristina, Nogueira e S. Pedro como fazendo parte do mesmo território. O rio Sardoura e a "serra Sicca" aparecem mencionados em diversos documentos para localizarem as propriedades ou lugares pertencentes ao global do território da Anégia, com as variantes "anegia", "annegia" e "aneeie" (Margarida Rosa M. de Pinho: 1991, p.67/8. A civitas de Anégia, parece indiscutível se localizava na freguesia de Santa Maria da Eja, onde atualmente se instala a capela de Nossa Senhora da Cividade. (Eja "Entre-os-Rios" A Civitas e a Igreja de S. Miguel de Carlos Alberto Ferreira de Almeida e Francisco Gaspar Almeida Lopes.

EXPRESSÔES POPULARES

A Apitar - expressão em gíria que designa falta de recursos, de dinheiro. "Paguei o que devia e fiquei a  a-apitar" (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).

Abifa-te, (e avinha-te e abafa-te) Receituário popular para as constipações ligeiras.

Abispa-te - Desenrasca-te; acautela-te; põe-te fino (Dicionário de Cinfães, de José Rodrigues: 2024).

Aboilada - Chacota; zombaria ruidosa quando um dos elementos do par (ela que fazia as "mancheias" e ele que as ripava / passava no ripo), atrasava o andamento do trabalho. (Margarida Rosa M Pinho:1991, p.36. Próximo de acaçoar - o mesmo que caçoar - troçar; escarnecer; zombar. Na mesma tarefa agrícola também se fala de arrincar (arrancar/colher) o linho. Associado à temática do linho temos ainda o Arejo (Margarida Rosa M Pinho:1991: p.35) doença nas folhas das plantas que faz secar(mirrar).

Afinfar - bater; dar pancada (Dicionário de Cinfães de José Rodrigues: 2024).

Anhar - passei o dia a anhar. Não fiz nada hoje.(Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2025)

Assizanar - chatear, provocar. Vocabulário popular recolhido por Manuel Caetano de Oliveira, na sua obra "Esse rio que era Douro": 2017, pag. 54

NOMES DE COISAS

Açafate - cesto baixo, redondo ou oval, sem arco nem tampa, normalmente feito de vime, zangarinheiro ou castanheiro. Imagem neste blogue da adep-paiva.blogspot.com (abrir Tema "Artesanato e produtos locais" e deslizar até 19.março.2011).

Aguilhada - pau com pico na ponta para picar os bois e vacas (o tamanho deste pico já é de longa data objeto de regulamentação, seja para proteção do couro, seja para evitar o sofrimento  e respeito pelo animal / outro pau é o fueiro que também se diz estadulho - deste, no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, se diz, pau que se coloca de lado no carro de bois ou em atreladopara segurar a carga. 

Alar - rede para pescar lampreias; puxar ou conduzir à sirga. ver sirga (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Anforas (vasos de cerâmica preta) - encontradas junto ao Monte do Crasto na estrada Frutuária/Castelo (Margarida Rosa M Pinho:1991, p.47).

Almocaba - o cemitério, em árabe (ilucidário de Adriano M Strecht Vasconcelos: 1981, pag. 93).


Recordamos o nosso estatuto editorial, desta rubrica: 


Estamos a reunir palavras e expressões do povo neste dicionário a que vamos chamar “Palavras da Terra”. Pretende-se um resgate afetivo e curioso das palavras que brotaram do chão onde pisamos — expressões antigas, regionalismos, topónimos singulares e vocábulos que carregam memórias, história, sotaques e modos de viver. Aqui colhem-se nomes de lugares e falares que não se leem nos manuais, mas se ouvem nas esquinas, nas feiras, nas conversas com os mais velhos e também nas bibliotecas. Um arquivo vivo da língua enraizada, onde cada palavra conta uma história do lugar de onde veio." Não estão no dicionário, mas ouvimos... às vezes podem estar nos livros antigos...
Não as localizaremos todas, pelo que fica aqui um convite à sua participação. Ajude-nos!












Martinho Rocha







 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Velharias e antiguidades Domingo, no Parque das Tílias!

Velharias e antiguidades Domingo, no Parque das Tílias!

Também encontrará artesanato, ferramentas, louças, mobiliário, vestuário, produtos da horta e colecionismo! Tudo tem direito a uma segunda vida. O ambiente agradece!




domingo, 3 de agosto de 2025

ECOS DO PORTUGUÊS ARCAICO OU GALEGO-PORTUGUÊS NO NORDESTE BRASILEIRO


imagem em https://www.igadi.gal/pt-pt/analise/e-a-galiza-e-lusofona/

ECOS DO PORTUGUÊS ARCAICO OU GALEGO-PORTUGUÊS NO NORDESTE BRASILEIRO

 

(I)

POR MOR DE SABER DE RAÍZES

 

-  Horácio Paiva *

 

Não censure. Pela fala, o matuto nordestino é de ultramar. Galego? Pelo menos o seu “pro mode” (por mor de) origina-se no galego-português, ou galaico-português, considerado, na Idade Média, a língua culta da Península Ibérica, falada nas regiões de Galiza e Portugal (oeste da Península), antes pertencentes ao Reino de Leão e, depois, ao de Castela.

 

Com efeito, na Europa, na chamada Alta Idade Média, entre tantos dialetos, eram mencionadas como línguas cultas, utilizadas pelos trovadores, poetas e demais literatos: na França, o provençal; na Itália, o toscano; na Península Ibérica, o galego-português. Assim, as célebres “Canções de Santa Maria”, do rei de Castela, Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português e não em castelhano, sua língua materna.

 

Essa bela raiz, o galego-português, bifurcou-se e gerou duas línguas irmãs, o galego e o português. E a geopolítica, atuando sobre fronteiras e nacionalidades, interferiu nesse processo. Alguns atribuem ao ano de 1.139 d.C., ano da batalha de Ourique  -  quando Portugal dava o passo definitivo para sua independência de Castela  -, como início da separação das duas línguas. Entretanto, não nos podemos prender a uma data e desconsiderar diversos outros fatores, profundos e mais complexos, como, por exemplo, o império colonial de ultramar criado por Portugal e a anterior e mais prolongada, em relação à Galícia, ocupação árabe de seu território.

 

Há tempos me debruço sobre essa questão, sobretudo porque, no Nordeste, guardamos muito da herança linguística do português arcaico, ou galaico-português, que nos foi transmitida pelo modo de falar dos antigos colonizadores portugueses, que se estabeleceram inicial e majoritariamente aqui, e mantida sobretudo no interior.

 

Admiro a língua galega e suas palavras conservadas no linguajar nordestino. Ainda hoje, em galego, água é auga, virgem é virxe (Virgem Maria!, Virxe María!), gente é xente, por causa de ou por amor de é por mor de (o nosso pro mode). Entonces, quando dizemos oxente estamos a dizer ô gente!... Sim, do jeito mesmo que falei, entonces, pois continua portuguesa a palavra, que em galego moderno é entón.

 

Os galegos, descendentes dos suevos e celtas, assim como os minhotos, do norte de Portugal, são brancos e, não raro, aloirados. Daí chamarmos "galegos" as pessoas assim descritas.

 

Certa vez, um poeta galego, Carlos Fontes (e não Carlos “Fuentes”, em escrita castelhana), escreveu-me uma pequena carta, um e-mail elogioso em galego. Ele conhecera uns poemas meus, através de Felix Contreras, poeta e ensaísta cubano, e gostara. Escreveu-me assim:

 

“Querido Horácio,

 

magnífica a súa poesía, chea de resóns e raiceiras. Tiven ocasión de ler os outros dous poemas que conforman a triloxía grazas a Félix.

O concello onde vivo, Vilaboa, pertence á provincia de Pontevedra, situada no suroeste de Galicia, raiana con Portugal, unidas polo Miño até a desembocadura no Atlántico. Así que, ademais de polo "flaco" Contreras, estamos conectados por un río e un océano, e mollamos os pés na mesma auga.

 

Unha calorosa aperta,

Carlos.”

 

(Xoán Carlos Fontes Moledo  -  seu nome completo)

 

 

A tradução (e precisa traduzir?) seria assim:

 

“Sua poesia é magnífica, cheia de ecos e raízes. Tive a oportunidade de ler os outros dois poemas que compõem a trilogia graças ao Félix.

O município onde vivo, Vilaboa, pertence à província de Pontevedra, situada no sudoeste da Galiza, na fronteira com Portugal, unida pelo Minho à foz do Atlântico. Assim, além do Contreras “magro”, estamos ligados por um rio e um oceano, e mergulhamos os pés na mesma água.

 

Um abraço caloroso,

Carlos.”

 

Quanta semelhança nas duas línguas!... Ambas, portanto, belas e muito parecidas!

 

Há poucos dias escrevi um poemeto e tive a ousadia de traduzi-lo para galego. Ficou assim:

 

TURNO MATUTINO

 

Não estou seguro desta manhã:

o dia parece

um trampolim...

 

A noite levou quem eu queria

e me deixou só

num limbo de marfim.

 

 

QUENDA DE MAÑÁ

 

Non estou seguro esta mañá:

o día parece

un trampolín...

 

A noite levou quen quería

e deixoume só

nun limbo de marfil.

 

 

 

(II)

 

A ALMA LÍRICA GALEGO-PORTUGUESA

 

-  Horácio Paiva *

 

A alma lírica da Galícia seria a mesma de Portugal? Já vimos que na Idade Média o idioma era o mesmo, o galego-português ou galaico-português, entre nós também chamado de português arcaico. Um dos textos literários mais antigos -  e que ultimamente vem-se confirmando como, de fato, o mais antigo preservado  -  é o sirventês (sátira ou cantiga de mal dizer) escrito pelo trovador português João Soares de Paiva (nascido em 1.140 d.C.), intitulado “Ora faz ost’o senhor de Navarra” (“Agora faz isto o senhor de Navarra”) e escrito, provavelmente, em 1.196 d.C. Nele, o poeta reprova o rei de Navarra por invadir Aragão, aproveitando-se da ausência do rei do país invadido (que se encontrava na Provença), atitude condenável sobretudo ante às regras morais da época.

 

Portugal e Galícia mantêm, ademais, um laço antigo, familiar, cultural e de sangue, que remonta à formação de seus povos e que advém dos Suevos, invasores germânicos de origem nórdica, que ali  -  no Noroeste da Península Ibérica, e com a desagregação do Império Romano do Ocidente  -  se estabeleceram, ao contrário dos Visigodos, originários do Oeste da Germânia, que fundaram seus reinos no Nordeste, Centro e Leste da mencionada Península, velha província romana da Hispânia.

 

Curioso e sobretudo importante destacar que na Galícia existe uma entidade cultural que preserva a tradição dessa irmandade linguística, e que abriga um movimento de reintegração do idioma à sua maneira autêntica/tradicional de expressar-se, isto é, reforça as posições pró-lusófonas, de unidade com a língua portuguesa. Trata-se da Academia Galega da Língua Portuguesa (https://www.academiagalega.gal/), constituída oficialmente em 20 de setembro em 2008. Embora nova, a Academia expressa uma aspiração de reintegração linguística antiga e consistente e já contabiliza uma importante vitória, com a decisão prolatada em 20 de julho de 2017, em reunião realizada no Brasil, em Brasília, pelo Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que lhe concede a categoria de Observador Consultivo, tornando-a, assim, a primeira entidade da sociedade civil galega a participar oficialmente desse organismo, e, acrescente-se, merecidamente, haja vista a sua defesa da unidade da língua portuguesa, da qual o galego historicamente faz parte.

 

A vitória, portanto, não é apenas da Academia, mas da própria língua que pulsa e quer ver-se oficialmente reintegrada ao seu leito secular originário, superando dificuldades, inclusive o obstáculo político que lhe foi imposto pela ditadura franquista durante algum tempo.  Com efeito, nessa época, até os nomes próprios tinham que ser registrados em castelhano (espanhol), já que proibidos estavam os cartórios de acolhê-los em galego.

 

Conheço pessoalmente dois exemplos vivos de pessoas que atravessaram essa experiência de nomes oficialmente mutilados para espanhol. Morou durante algum tempo em Natal (agora, já em Portugal), contratado pela Fundação José Augusto, um escritor e dramaturgo galego chamado Monxo Rodrigues que, havendo nascido no período franquista, fora registrado como Ramón Rodriguez Guisande. Por sua vez, Juan Carlos Fuentes Moledo, escritor, contista, poeta, jornalista, que vive em Pontevedra, Galícia, tem dessa forma registrado o seu nome, mas, com orgulho, usa outro, o seu nome galego, Carlos Fontes, com o qual assina as cartas que me dirige, também no seu idioma materno.

 

Assim, a língua galega vive... e encanta! E eis, no original galego, o final de uma dessas cartas que me mandou o poeta Carlos Fontes, de expressão tão exemplar:

 

“E escribo en galego, a actualización histórica daquela lingua que, entre os séculos XII  e XV, acadou gloria en forma de lírica mediaval galego-portuguesa. A lingua portuguesa seguiu o seu camiño, e a galega, baixo a forte influencia de Castela, iniciu unha longa viaxe polo deserto ata poderse refrescar na figura de Rosalía de Castro, que, a mediados do XIX, inicia o Rexurdimento.

 

Unha aperta grande e agarimosa,

 

Carlos Fontes.”

 

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(*) Horácio de Paiva Oliveira  -  Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.