imagem em https://www.igadi.gal/pt-pt/analise/e-a-galiza-e-lusofona/
ECOS DO PORTUGUÊS ARCAICO OU GALEGO-PORTUGUÊS NO NORDESTE BRASILEIRO
(I)
POR MOR DE SABER DE RAÍZES
- Horácio Paiva *
Não censure. Pela fala, o matuto nordestino é de ultramar. Galego? Pelo menos o seu “pro mode” (por mor de) origina-se no galego-português, ou galaico-português, considerado, na Idade Média, a língua culta da Península Ibérica, falada nas regiões de Galiza e Portugal (oeste da Península), antes pertencentes ao Reino de Leão e, depois, ao de Castela.
Com efeito, na Europa, na chamada Alta Idade Média, entre tantos dialetos, eram mencionadas como línguas cultas, utilizadas pelos trovadores, poetas e demais literatos: na França, o provençal; na Itália, o toscano; na Península Ibérica, o galego-português. Assim, as célebres “Canções de Santa Maria”, do rei de Castela, Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português e não em castelhano, sua língua materna.
Essa bela raiz, o galego-português, bifurcou-se e gerou duas línguas irmãs, o galego e o português. E a geopolítica, atuando sobre fronteiras e nacionalidades, interferiu nesse processo. Alguns atribuem ao ano de 1.139 d.C., ano da batalha de Ourique - quando Portugal dava o passo definitivo para sua independência de Castela -, como início da separação das duas línguas. Entretanto, não nos podemos prender a uma data e desconsiderar diversos outros fatores, profundos e mais complexos, como, por exemplo, o império colonial de ultramar criado por Portugal e a anterior e mais prolongada, em relação à Galícia, ocupação árabe de seu território.
Há tempos me debruço sobre essa questão, sobretudo porque, no Nordeste, guardamos muito da herança linguística do português arcaico, ou galaico-português, que nos foi transmitida pelo modo de falar dos antigos colonizadores portugueses, que se estabeleceram inicial e majoritariamente aqui, e mantida sobretudo no interior.
Admiro a língua galega e suas palavras conservadas no linguajar nordestino. Ainda hoje, em galego, água é auga, virgem é virxe (Virgem Maria!, Virxe María!), gente é xente, por causa de ou por amor de é por mor de (o nosso pro mode). Entonces, quando dizemos oxente estamos a dizer ô gente!... Sim, do jeito mesmo que falei, entonces, pois continua portuguesa a palavra, que em galego moderno é entón.
Os galegos, descendentes dos suevos e celtas, assim como os minhotos, do norte de Portugal, são brancos e, não raro, aloirados. Daí chamarmos "galegos" as pessoas assim descritas.
Certa vez, um poeta galego, Carlos Fontes (e não Carlos “Fuentes”, em escrita castelhana), escreveu-me uma pequena carta, um e-mail elogioso em galego. Ele conhecera uns poemas meus, através de Felix Contreras, poeta e ensaísta cubano, e gostara. Escreveu-me assim:
“Querido Horácio,
magnífica a súa poesía, chea de resóns e raiceiras. Tiven ocasión de ler os outros dous poemas que conforman a triloxía grazas a Félix.
O concello onde vivo, Vilaboa, pertence á provincia de Pontevedra, situada no suroeste de Galicia, raiana con Portugal, unidas polo Miño até a desembocadura no Atlántico. Así que, ademais de polo "flaco" Contreras, estamos conectados por un río e un océano, e mollamos os pés na mesma auga.
Unha calorosa aperta,
Carlos.”
(Xoán Carlos Fontes Moledo - seu nome completo)
A tradução (e precisa traduzir?) seria assim:
“Sua poesia é magnífica, cheia de ecos e raízes. Tive a oportunidade de ler os outros dois poemas que compõem a trilogia graças ao Félix.
O município onde vivo, Vilaboa, pertence à província de Pontevedra, situada no sudoeste da Galiza, na fronteira com Portugal, unida pelo Minho à foz do Atlântico. Assim, além do Contreras “magro”, estamos ligados por um rio e um oceano, e mergulhamos os pés na mesma água.
Um abraço caloroso,
Carlos.”
Quanta semelhança nas duas línguas!... Ambas, portanto, belas e muito parecidas!
Há poucos dias escrevi um poemeto e tive a ousadia de traduzi-lo para galego. Ficou assim:
TURNO MATUTINO
Não estou seguro desta manhã:
o dia parece
um trampolim...
A noite levou quem eu queria
e me deixou só
num limbo de marfim.
QUENDA DE MAÑÁ
Non estou seguro esta mañá:
o día parece
un trampolín...
A noite levou quen quería
e deixoume só
nun limbo de marfil.
(II)
A ALMA LÍRICA GALEGO-PORTUGUESA
- Horácio Paiva *
A alma lírica da Galícia seria a mesma de Portugal? Já vimos que na Idade Média o idioma era o mesmo, o galego-português ou galaico-português, entre nós também chamado de português arcaico. Um dos textos literários mais antigos - e que ultimamente vem-se confirmando como, de fato, o mais antigo preservado - é o sirventês (sátira ou cantiga de mal dizer) escrito pelo trovador português João Soares de Paiva (nascido em 1.140 d.C.), intitulado “Ora faz ost’o senhor de Navarra” (“Agora faz isto o senhor de Navarra”) e escrito, provavelmente, em 1.196 d.C. Nele, o poeta reprova o rei de Navarra por invadir Aragão, aproveitando-se da ausência do rei do país invadido (que se encontrava na Provença), atitude condenável sobretudo ante às regras morais da época.
Portugal e Galícia mantêm, ademais, um laço antigo, familiar, cultural e de sangue, que remonta à formação de seus povos e que advém dos Suevos, invasores germânicos de origem nórdica, que ali - no Noroeste da Península Ibérica, e com a desagregação do Império Romano do Ocidente - se estabeleceram, ao contrário dos Visigodos, originários do Oeste da Germânia, que fundaram seus reinos no Nordeste, Centro e Leste da mencionada Península, velha província romana da Hispânia.
Curioso e sobretudo importante destacar que na Galícia existe uma entidade cultural que preserva a tradição dessa irmandade linguística, e que abriga um movimento de reintegração do idioma à sua maneira autêntica/tradicional de expressar-se, isto é, reforça as posições pró-lusófonas, de unidade com a língua portuguesa. Trata-se da Academia Galega da Língua Portuguesa (https://www.academiagalega.gal/), constituída oficialmente em 20 de setembro em 2008. Embora nova, a Academia expressa uma aspiração de reintegração linguística antiga e consistente e já contabiliza uma importante vitória, com a decisão prolatada em 20 de julho de 2017, em reunião realizada no Brasil, em Brasília, pelo Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que lhe concede a categoria de Observador Consultivo, tornando-a, assim, a primeira entidade da sociedade civil galega a participar oficialmente desse organismo, e, acrescente-se, merecidamente, haja vista a sua defesa da unidade da língua portuguesa, da qual o galego historicamente faz parte.
A vitória, portanto, não é apenas da Academia, mas da própria língua que pulsa e quer ver-se oficialmente reintegrada ao seu leito secular originário, superando dificuldades, inclusive o obstáculo político que lhe foi imposto pela ditadura franquista durante algum tempo. Com efeito, nessa época, até os nomes próprios tinham que ser registrados em castelhano (espanhol), já que proibidos estavam os cartórios de acolhê-los em galego.
Conheço pessoalmente dois exemplos vivos de pessoas que atravessaram essa experiência de nomes oficialmente mutilados para espanhol. Morou durante algum tempo em Natal (agora, já em Portugal), contratado pela Fundação José Augusto, um escritor e dramaturgo galego chamado Monxo Rodrigues que, havendo nascido no período franquista, fora registrado como Ramón Rodriguez Guisande. Por sua vez, Juan Carlos Fuentes Moledo, escritor, contista, poeta, jornalista, que vive em Pontevedra, Galícia, tem dessa forma registrado o seu nome, mas, com orgulho, usa outro, o seu nome galego, Carlos Fontes, com o qual assina as cartas que me dirige, também no seu idioma materno.
Assim, a língua galega vive... e encanta! E eis, no original galego, o final de uma dessas cartas que me mandou o poeta Carlos Fontes, de expressão tão exemplar:
“E escribo en galego, a actualización histórica daquela lingua que, entre os séculos XII e XV, acadou gloria en forma de lírica mediaval galego-portuguesa. A lingua portuguesa seguiu o seu camiño, e a galega, baixo a forte influencia de Castela, iniciu unha longa viaxe polo deserto ata poderse refrescar na figura de Rosalía de Castro, que, a mediados do XIX, inicia o Rexurdimento.
Unha aperta grande e agarimosa,
Carlos Fontes.”
........................................................................................................................
(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.