A opinião dos nossos pares eméritos, também conta !
Palestra proferida, pelo Eng.º Mário Gonçalves Pereira, nosso associado honorário e ex-presidente da mesa da Assembleia Geral, no jantar-convívio com o Grupo Coral dos Mineiros do Pejão, organizado pela troika das associações: ADEP, ARCAF e GDCP, para que foram convidadas as presidências da Câmara Municipal e Juntas de Freguesia do Couto Mineiro:
“- Agradeço o convite e a atenção dispensada e congratulo-me com a iniciativa, já que, de uma assentada conseguem reunir um grupo de entidades com responsabilidades públicas, que podem em conjunto reunir esforços para dinamização de várias situações que estão nas preocupações de todos, mas, talvez, em estado de banho-maria, a aguardar melhores dias.
Aqui estou, nesta nossa Terra que é Paiva, sendo que sofro da vossa mesma ansiedade e vontade, para que tais situações possam chegar mais cedo do que tarde, a bom termo.
No selo da minha génese encontram-se raízes de Oliveira juntamente com águas de batismo do Arda. Sou portanto um natural entre vós.
Queria pedir aos presentes alguma paciência e tempo que permitam a leitura de umas quantas ideias, meias feitas, que compilei e passei para o papel e que povoam a minha mente, desde há muito tempo a esta parte, e que gostosamente desejo desabafar convosco, porque sei que muitos de vós também sentem e vivem as dificuldades subjacentes à viabilização e concretização da normalidade das situações que lhes vou apontar e que se pudessem ser concretizadas, muito beneficiariam o nosso Concelho, no concernente à cultura, à história e ao incremento turístico.
Passo a expor alguns assuntos já com algum historial e por certo conhecidos por muitos de vós, senão por alguns, e que, penso eu, mereciam melhor sorte. São situações que trago enclausuradas na minha mente e para as quais não se vislumbra um fim, melhor dito: o começo de uma solução que lhes dê vida e visibilidade.
Em primeiro lugar refiro-me a duas situações históricas que, quanto a mim, nunca saíram da porta das boas intenções, ou se saíram ainda não chegaram a bom termo.
Como primeiro assunto, ou situação, gostaria de abordar a temática dos Museus em Castelo de Paiva.
Esta é uma terra que nessa área tem bastante para fazer e para fomentar, mas tarda em avançar.
A nossa terra pode sair do anonimato em termos de Museus porque tem algum potencial para isso. Por enquanto, ainda há material bastante e atrativo para a criação de Museus, mas, sabe-se lá, até quando.
Vou focar-me nos dois locais de maior referência: Couto Mineiro e Parque das Tílias, a que chamaria Polo1 e Polo 2.
Com peças de ferramenta de trabalho, máquinas, barcos, galerias e poços, material fotográfico, vídeos, edifícios e outros, com arquivos em papel, revista e jornais, ainda é possível criar um Museu, quase a céu aberto, com dois polos: um no contexto das ex-minas e outro no Parque das Tílias, este com as temáticas ligadas ao ser e ao fazer.
Assim o Polo 1 compreenderia as zonas de Pejão/Choupelo, Fojo, Pedorido/Germunde e o Polo 2 teria por base o Parque das Tílias onde está instalada a ADEP.
No Polo 1 os locais referidos têm só por si território e matéria bastante para se tornarem atrativos para visitas no exterior das minas. Aliás já algo foi feito, mas pode ainda fazer-se muito mais e melhor.
Quero lembrar aos presentes que a Empresa Carbonífera do Douro, ao longo de muitos anos, era uma sociedade de designação Limitada L.da, isto é, não existia como sociedade anónima, era detida por particulares identificados. E essas pessoas deram ênfase aos seus vários locais de exploração do carvão atribuindo, ou batizando, as suas locomotivas com os nomes Choupelo, Pejão, Fojo, Pedorido, Germunde e Pedemoura.
O Património edificado, a maior parte já em ruinas, outro já desaparecido, ainda permanece vivo na mente de muitos ex-trabalhadores e suas famílias descendentes, mas também na memória de uma boa parte da população paivense.
E diga-se em abono da verdade: as minas foram de capital importância, na sua época, para o desenvolvimento concelhio e alguns dos responsáveis da Empresa deram o seu especial contributo, com parte do seu tempo, na assunção da presidência da Câmara, como é sabido.
Hoje ainda há memórias vivas que levam bem longe o nome do Couto Mineiro do Pejão e do Concelho de Castelo de Paiva, com especial referência para a Banda dos Mineiros do Pejão e para as Associações que prezam em manter viva a chama do Briquete Pejão, como sejam as que aqui temos representadas.
Mas material a recolher, certamente que haverá muito, quer no Concelho, quer na Biblioteca Municipal do Porto, dado que a SEDE da Empresa esteve instalada na Praça D. João I, 25 no 5º andar.
Sugiro, assim, que se lancem novos olhares e alguma reflexão sobre o possível Museu do Couto Mineiro.
No Polo 2, a ADEP desde há muito tempo possui material suficiente para a criação de um exemplar Museu expositor de artefactos ligados a atividades as mais diversas, dispondo ainda de Biblioteca e depositária de alfaias e múltiplos utensílios profissionais, e de salas diversas, além do magnífico recinto que é o Parque.
Com enorme significado popular e rural realiza a grandiosa Feira anual à Seculo XIX, que atrai meio mundo. Já as suas Feiras de Velharias mensais estão em franco crescimento de comerciantes expositores dos seus apetrechos.
Como complemento e paralelamente à existência destes dois Polos Museológicos, seria interessante criar um circuito turístico concelhio que abrangeria as zonas do Polo 1, Pejão/Choupelo, Fojo, Pedorido/Germunde, com visitas pedonais aos locais de maior interesse, não esquecendo a Ponte Centenária de Pedorido e a locomotiva ali instalada e com passagem pelos cumes dos montes de S. Domingos e de S. Gens, pelo Largo do Conde e Marmoiral da Boavista, Miradouro de Catapeixe e terminus no Parque das Tílias.
Ao longo desse circuito, aos fins-de-semana e feriados, mas principalmente na época turística, poderiam ser instaladas Bancas, a submeter a concurso anual, ou bianual, para exploração pelos habitantes locais, dos seus produtos artesanais ou não, a definir no concurso, de forma a proporcionar aos visitantes mostras do que se produz, ou confeciona no concelho. Seria uma forma de atrair e cativar muitos visitantes. Também as Salas do Edifício do Turismo em Sobrado, parece-me, deveriam ser mais dinâmicas e atrativas.
Costumo dizer que as abelhas só colhem mel onde há flores. Mas para haver flores há, necessariamente, que trabalhar para as plantar ou para as proteger nos seus habitats naturais. Pode dizer-se também, que para as atrair é preciso pôr-lhes no caminho algo do que procuram. O mesmo se passa com o turismo.
Passando a uma segunda situação, a qual parece ter parado no tempo, porque não se vislumbra qualquer saída digna, e nem se dá conta de eventuais desenvolvimentos ou relatórios, quanto ao seu futuro, é a Casa do Conde na Boavista. Parece nada se saber sobre o Testamento deixado pelo último Conde de Castelo de Paiva, e nos períodos das últimas 4 ou 5 presidências da Câmara Municipal, certamente que houve movimentações nesse sentido. Mas haverá trabalho produtivo? Desconhecendo eu, por completo o assunto, permita-me o senhor Presidente Ricardo Cardoso, que deixe aqui uma sugestão, uma interrogação muito minha: será que é possível tentar chegar a acordo com os usufrutuários constantes no testamento referente à Casa da Boavista em Sobrado e demais património, no intuito de poder vir a constituir-se uma parceria, um acordo, em que a Câmara assumiria o legado, tão rápido quanto possível e desde logo se comprometeria a pagar uma renda aos beneficiários durante o período constante no testamento? Confesso que não sei se esta é uma proposta plausível.
Percebe-se que a resolução deste caso não é fácil, é morosa e dispendiosa, mas tentar esta solução não custaria dinheiro, nem causaria qualquer dano. O património, degrada-se imenso a cada ano que passa e, no final, quando a Câmara vier a assumir essa herança, creio que já nada restará.
Certamente que se houvesse contactos com o Governo Central, pedindo colaboração na resolução da tomada de posse definitiva pela Câmara, e ao mesmo tempo contribuísse também com ajuda financeira num empréstimo a longo prazo, aquilo que é hoje um problema podia transformar-se, desde logo, numa solução e numa saída airosa para ambas as partes. O custo do investimento inicial que porventura se fizesse, poderia ser diluído ao longo de vários anos.
Essa iniciativa não chocará ninguém porque, como é sabido, no futuro o património existente não deixará de ser propriedade do Estado via Município, mas esse futuro ainda vem longe, muito longe.
Quanto a mim, na Casa da Boavista, pode e deve nascer ali um Museu Municipal com o nome de Conde de Castelo de Paiva, e não um Hotel, como aconteceu em Oeiras.
Quero recordar que os Condes de Castelo de Paiva embora tivessem uma residência em Oeiras, viveram em Castelo de Paiva uma grande parte das suas vidas e o primeiro Conde nasceu, precisamente, na Casa da Boavista.
É um espaço com muita história e a história alimenta o ego das pessoas. Sendo o homem um animal de hábitos, os homens de hoje de Castelo de Paiva não podem perder o hábito de ler e tratar da sua história, sob pena de esvaírem a sua identidade de verdadeiros paivenses.
Outra situação que desejo expor tem a ver com a história de Santo António, o Santo de Pádua e de Lisboa, mas também de Paiva, porque foi nas Vilas de Gondim e de Vegide que viveram seus progenitores, terras estas que eram administradas por representantes dos reis de Leão e da Galiza, reinos que vieram a integrar a atual Espanha, ao tempo da Independência de Portugal, assumida por D. Afonso Henriques.
E no território de Castelo de Paiva, apesar de haver Capelas com o nome de Santo António, e Igrejas com imagens do mesmo Santo e festejos vários a Santo António e também uma Rua com o seu nome, mesmo assim, com esta preponderância toda, o Santo não é dignificado corretamente pelo Município. Porquê? podem perguntar, mas mesmo sem perguntas posso responder: porque, tempos atrás, autarcas dessa época, optaram por alterar o feriado Municipal, que coincidia com a data da festa da Senhora dos Milagres, que se realiza em Sobrado no mês de Julho, passando-o para o dia 24 de Junho, dia de S. João.
Que me perdoe S. João, mas o feriado municipal deveria ser mesmo o dia de Santo António.
E razões não faltam. Santo António é festejado em Gondra, em Pedorido, em Fornos, tem origens em Sobrado e os Condes de Castelo de Paiva ergueram na Boavista uma Capela dedicada a Santo António.
Acresce dizer ainda que, em tempos idos, algumas pessoas de terras de Paiva, doaram parte das suas propriedades ao Mosteiro de Paço de Sousa, Mosteiro esse, que diz-nos a história medieval, foi fundado por ascendentes de Santo António.
E aproveitando este desfiar da história, senhor Presidente da Câmara, não quero perder a oportunidade de lhe lançar um novo repto, mais uma sugestão: independentemente do desfecho do testamento antes visado, entendo que seria uma boa ideia tentar granjear apoios com vista à aquisição antecipada da Casa Torre de Vegide, que terá sido onde nasceu a mãe de Santo António e atualmente em elevado grau de degradação. Com algumas obras de adaptação, poder-se-ia vir a instalar aí, a Assembleia Municipal.
Por último, para terminar esta minha exposição, uma outra sugestão:
O Município não tem o hábito de homenagear ex-presidentes de Câmara.
Recorde-se que existe em Sobrado o Largo com a estátua do primeiro Conde, Largo esse que é considerado a Sala de visitas do Concelho.
Os Condes de Castelo de Paiva, pai e filho, como sabemos, já constam da história deste Concelho. A estátua existente não traduz apenas a figura do Conde. Simboliza, isso sim, as importantes obras que o mesmo conseguiu que fossem concretizadas em prol do Concelho e, também, a gratidão dos paivenses do seu tempo, pelos benefícios que advieram dos trabalhos realizados e que puseram as terras de Paiva na rota do desenvolvimento.
Apesar de não ser habitual, não ficaria mal ao Município mandar elaborar uma brochura elencando tudo o que no Concelho foi obra realizada por força das intervenções desses dois Condes, junto do poder Central em Lisboa, brochura que ficaria exposta na Biblioteca à disposição do público em geral e, em particular, para consulta dos munícipes interessados, que os haverá certamente.
Por outro lado, esse seria mais um documento que ali permaneceria para memória futura, abordando uma época de crescimento ímpar em Castelo de Paiva.
É sabido que o hábito não faz o Monge, o que nesta situação significaria não ficar só por este caso. Haveria que proceder uma vez e outra, repetir até, se necessário em casos similares de grande interesse concelhio. É que a excelência vem da prática contante. E estes atos, se replicados, seriam trabalhos de excelência.
Termino com um voto de confiança no futuro, mas também em vós.
Certamente que as entidades aqui representadas têm e sentem a necessidade de manter o curso da história, dando-lhe continuidade em direção ao futuro, exemplo para os vindouros e respeito pelos que os antecederam. Se houver continuidade, pelo vosso esforço, também ficarão na história, estou certo.
Grato pela vossa atenção e paciência.”

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